{"id":63,"date":"2012-06-19T16:42:15","date_gmt":"2012-06-19T16:42:15","guid":{"rendered":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/?p=63"},"modified":"2012-06-20T16:44:58","modified_gmt":"2012-06-20T16:44:58","slug":"tensao-e-contradicao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/?p=63","title":{"rendered":"Tens\u00e3o e Contradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\"><em>Jos\u00e9 Marcelo Esp\u00edrito Santo<\/em><br \/>\n<em>Arquiteto e Professor de Hist\u00f3ria da Arte da<\/em><br \/>\n<em>Universidade Federal do Maranh\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Na produ\u00e7\u00e3o de um artista contempor\u00e2neo podemos captar aquela fra\u00e7\u00e3o do desconhecido presente em sua obra que \u00e9 capaz de desmantelar o senso comum, fomentando assim a discuss\u00e3o art\u00edstica sem perdermos de vista sua for\u00e7a po\u00e9tica individual. Raimunda Fortes apresenta essa caracter\u00edstica e seu trabalho se afirma como um testemunho de alto teor pessoal, refletindo a no\u00e7\u00e3o de &#8220;si mesma&#8221;, que \u00e9 o instante no qual a artista, entregue ao desconhecido, se funde ao mundo e o recria.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o <em>Tens\u00e3o e Contradi\u00e7\u00e3o<\/em> apresenta a mesma linguagem abstrata da primeira individual da artista, <em>Sentimentos e S\u00edmbolos<\/em>, de 1997. Por\u00e9m as mostras revelam diferen\u00e7as na abordagem e apropria\u00e7\u00e3o do universo pl\u00e1stico pela artista.<\/p>\n<p><em>&#8220;(&#8230;) arte como reden\u00e7\u00e3o do que conhece &#8211; daquele que v\u00ea o car\u00e1ter terr\u00edvel e problem\u00e1tico da exist\u00eancia, que quer v\u00ea-lo, do conhecedor tr\u00e1gico.<\/em><\/p>\n<p><em>A arte como a reden\u00e7\u00e3o do que age &#8211; daquele que n\u00e3o somente v\u00ea o car\u00e1ter terr\u00edvel e problem\u00e1tico da exist\u00eancia, mas o vive, quer viv\u00ea-lo, do guerreiro tr\u00e1gico, do her\u00f3i. (&#8230;)&#8221;<\/em> (Friedrich Nietzsche, 1871)<\/p>\n<p>Entendemos assim a rela\u00e7\u00e3o sentimento e s\u00edmbolo pl\u00e1stico da primeira exposi\u00e7\u00e3o, que apresentou um conjunto de obras com cores prim\u00e1rias suaves, em grandes extens\u00f5es n\u00e3o contrastantes e fundo negro.<\/p>\n<p><em>Tens\u00e3o e Contradi\u00e7\u00e3o<\/em>, por\u00e9m, apresenta elementos sobre o fasc\u00ednio da arte sobre o homem, preocupa\u00e7\u00f5es agora n\u00e3o s\u00f3 da artista pl\u00e1stica, mas tamb\u00e9m da webmaster, programadora visual e pesquisadora em Hist\u00f3ria da Arte.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o como uma das bases do movimento interno da pr\u00f3pria realidade, numa resposta da artista sobre como a arte pode de alguma forma equilibrar o lado racional (o estado da raz\u00e3o) e o lado sens\u00edvel (a dimens\u00e3o espont\u00e2nea e emocional) do homem. A arte como maneira de fundir as duas dimens\u00f5es da natureza humana, educando as pessoas desprovidas de um ou de outro temperamento a se tornarem mais integrados<em>. &#8220;(&#8230;) apenas a percep\u00e7\u00e3o do Belo faz do homem algo inteiro, porque ele coloca em harmonia ambos os lados da sua natureza (&#8230;)&#8221;<\/em> (Schiller), ou seja, s\u00f3 se transforma em racional um homem sens\u00edvel, tornando-o primeiramente est\u00e9tico.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a resposta da artista para a tens\u00e3o poss\u00edvel de um mundo desesperador sem a ilus\u00e3o da arte. O artista transfigura o mundo, dota-o de sentido e beleza, tornando-o assim pass\u00edvel de ser vivido.<\/p>\n<p>Raimunda Fortes apresenta obras de dimens\u00f5es superiores \u00e0s anteriores (perdeu-se o contato com o cavalete), abandona o fundo negro e utiliza, instintivamente, as cores do &#8220;sentimento essencial&#8221; de Wassily Kandinsky. Em quatro combina\u00e7\u00f5es de cores quentes e frias, duas a duas, Kandinsky revela o preto e o branco como &#8220;as duas grandes possibilidades de sil\u00eancio, morte e nascimento&#8221;, o amarelo (&#8220;a t\u00edpica cor terrosa&#8221;) e o azul (&#8220;a cor celestial&#8221;), o &#8220;m\u00f3rbido&#8221; violeta e o &#8220;poderoso&#8221; laranja, o &#8220;determinado&#8221; vermelho e o verde (&#8220;que se auto-satisfaz&#8221;).<\/p>\n<p>A arte contempor\u00e2nea possui uma gera\u00e7\u00e3o que se recusa a operar fora de si pr\u00f3pria, mas que assimila seu papel e age tentando revelar o que de melhor tem a oferecer. O Maranh\u00e3o tamb\u00e9m possui este grupo de artistas, cujos pr\u00f3prios limites ainda n\u00e3o se conhecem. Artistas sintonizados numa espreita do futuro, \u00e0 busca de uma sa\u00edda para uma instabilidade do presente, artistas calcados no presente, revelando e questionando seu meio, artistas indagando algo fixado num poss\u00edvel ou mistificado futuro, artistas que como Raimunda Fortes tentam expandir com agudeza pacienciosa suas possibilidades.<\/p>\n<p>A arte nas d\u00e9cadas de 60 e 70 proclamou sua pr\u00f3pria morte. A obra apresentou-se como \u201cxeque-mate\u201d ao pr\u00f3prio sistema da arte. A que no Brasil denominou-se \u201cGera\u00e7\u00e3o de 80\u201d apresentou uma rea\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior, reivindicando o direito a um jogo mais livre, utilizando-se de um repert\u00f3rio herdado da pr\u00f3pria Historia da Arte e produzindo obras que falavam de outras obras, como met\u00e1foras de met\u00e1foras. Hoje os artistas voltam a buscar os limites da arte, como a 20 anos atras, por\u00e9m sem o comprometimento com cita\u00e7\u00f5es a um estilo ou t\u00e9cnica, como ocorreu com a gera\u00e7\u00e3o de 80.<\/p>\n<p>A quem, ent\u00e3o, fala esta nova gera\u00e7\u00e3o ? A rela\u00e7\u00e3o produtor e fruidor da obra, existente desde a Renascen\u00e7a ate recentemente se dissolveu. O p\u00fablico agora se apresenta como uma multid\u00e3o an\u00f4nima, como o do cinema, da literatura, do disco, presente n\u00e3o mais no ateli\u00ea do artista, mas sim nas grandes exposi\u00e7\u00f5es internacionais (que muitas vezes s\u00e3o as \u00fanicas a conseguir o interesse da massa) ou, que via Internet, navega nas galerias virtuais e p\u00e1ginas pessoais dos artistas.<\/p>\n<p>As obras de arte, frente a este sistema de informa\u00e7\u00f5es que exige efeitos imediatos, mensagens sint\u00e9ticas e facilidade de circula\u00e7\u00e3o, tornam-se obscuras e tortuosas. Em compensa\u00e7\u00e3o, uma vez postos em movimento podem continuar produzindo novos significados, por s\u00e9culos. Uma solu\u00e7\u00e3o dos artistas, a meu ver f\u00e1cil para este problema, foi conferir \u00e0 arte conte\u00fados elaborados a partir de seu exterior, como cita\u00e7\u00f5es a minorias culturais, pol\u00edticas e sexuais, que agora passam a reivindicar um acesso a arte.<\/p>\n<p>Raimunda Fortes, se por um lado ainda resiste em sua participa\u00e7\u00e3o pessoal nesse novo meio de divulga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o opta pelo caminho f\u00e1cil de cita\u00e7\u00f5es externas ao processo criativo e art\u00edstico. Ao abordar novamente a linguagem abstrata, crescendo suas telas ou agregando elementos a sua superf\u00edcie, insiste no eterno exerc\u00edcio da busca da expressividade interior do artista, traduzida em cores e formas visuais n\u00e3o figurativas.<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es tem sempre uma dose de arbitrariedade. Por\u00e9m a artista possibilita com seus quadros a dose de arbitrariedade necess\u00e1ria para que determinado per\u00edodo \u201cinvente e descubra\u201d os artistas de sua gera\u00e7\u00e3o, nas marcas de sua pr\u00f3pria sensibilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Marcelo Esp\u00edrito Santo Arquiteto e Professor de Hist\u00f3ria da Arte da Universidade Federal do Maranh\u00e3o Na produ\u00e7\u00e3o de um artista contempor\u00e2neo podemos captar aquela fra\u00e7\u00e3o do desconhecido presente em sua obra que \u00e9 capaz de desmantelar o senso comum, &hellip; <a href=\"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/?p=63\">Continuar lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-63","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-criticas"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=63"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":65,"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63\/revisions\/65"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=63"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=63"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/raimundafortes.com.br\/fortes_wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=63"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}